A Dança e o Perdão – Abril 2021

 

A Dança e o Perdão
Por Yolanda Rebelo - Abril 2021

Tomei consciência há pouco tempo que tenho muita dificuldade em perdoar quem me magoou!
A menos que a pessoa me tenha pedido desculpas com verdadeira sinceridade, eu guardo rancor durante muito tempo!
Eu sou uma pessoa dedicada ao Desenvolvimento Pessoal, mas este é o meu lado negro! Acho que o nome é Orgulho! Este orgulho não é em não querer perdoar, é um orgulho de não admitir que fui magoada!
Eu só guardo rancor de pessoas de quem gostei muito e que gostava que tivessem gostado de mim com a mesma verdade! Especificamente na Dança, nos últimos anos, os meus ressentimentos têm sido com colegas do sexo feminino com quem fiz parcerias e que em vários momentos me criticaram de forma nada construtiva por coisas ligadas ao meu guarda-roupa e à minha dança.
Já recebi críticas destrutivas, directas e indirectas, de pessoas com quem quase não me relaciono e consigo separar claramente os meus sentimentos e perceber que certas coisas são a inveja do outro e não um problema meu! 
 Tenho aproveitado esta consciência para ver onde é que eu, ao longo da vida, terei agido do mesmo modo e tenho aproveitado para reparar o que pode ser reparado.
No entanto, a mais crua realidade é que, em parcerias de trabalho na dança, tenho a tendência para querer criar amizades para a vida e confiar em pessoas que nem sempre estão com essa intenção. Por vezes lidei com pessoas cegas com o seu ego que me viam como um prolongamento de si próprias, obcecadas com a sua imagem para o exterior e com a sua carreira e/ou que me viam como um trampolim para os seus objectivos.
Ao não corresponder à sua visão ou simplesmente porque gostavam de ser ou ter algo que tenho (que certamente não é dinheiro porque várias vezes me criticaram a pobreza do guarda-roupa) fui altamente criticada! Eu nunca reagi de forma emocional porque nunca aceitei que aquilo me magoava! Manifestava a minha opinião contrária às críticas, justificava-me ou chamava a atenção de forma assertiva, mas nunca aceitei que estava magoada! 
A consequência foi um crescente ressentimento que se foi instalando no meu coração!
Há alguns meses fiz uma formação que finalmente consegui validar como eficiente para trabalhar o Perdão e tenho-me focado muito nisso, só que há coisas que não ficam logo resolvidas, precisam de várias acções! E também há coisas de que não me lembro logo no momento que estou a fazer o ritual de perdão, elas só me vêm à memória quando essa pessoa faz alguma coisa que acciona a ferida emocional!
Tenho muitas lâminas cravadas no peito ainda por tirar! Algumas foram apenas agulhas e outras foram verdadeiras facas de cozinha. Todas elas têm vindo há minha consciência durante este isolamento pandémico em que já não convivo fisicamente com nenhuma das minhas ex parceiras e já não me sinto frágil como sentia nas ocasiões em que recebi as críticas (as críticas vêm sempre quando deixamos uma porta emocional aberta à frente de quem não nos quer 100% bem).  As memórias vêm uma ou duas de cada vez para que eu as trate, as lembre, as sinta até à exaustão, e depois me liberte delas! Está a ser um processo longo e cansativo!
Por cada crítica tenho de observar onde, no momento, não me amei o suficiente para não levar nada daquilo a peito. Um lado meu ficou magoado e outro lado meu fingiu orgulhosamente que não! É claro que eu agradeço comentários que apontem os pontos fracos do meu trabalho para que eu possa melhorar, mas não foi isso que eu recebi! 
Tenho também de conseguir ver as coisas pelos olhos do outro para poder criar empatia e assim perdoá-lo!
O meu ponto fraco verdadeiro foi querer que gostassem de mim e ter achado, em muitos momentos da minha vida, que eu não era suficiente para esse efeito! Então acabei por me associar a pessoas que pensavam e sentiam o mesmo que eu, mas que tinham um agir agressivo, reforçando as minhas crenças de que eu, por mim só, não chegava e, que tinha de fazer mais e melhor! Ou que tinha de fazer como elas porque elas é que estavam certas! Não admiti que estava magoada porque na verdade acreditava que elas tinham razão!
No caso do guarda-roupa, tem sido uma das questões mais difíceis de acompanhar na exigência dos dias de hoje. Nenhuma bailarina de Dança Oriental que viva só da dança em Portugal, e que viva sozinha e pague as contas sem ajuda de marido ou dos pais (e sem jeito para a costura) consegue manter um guarda-roupa variado todos os anos ao preço da qualidade esperada de um profissional. Essa tem sido uma questão com a qual me tenho debatido interiormente e me fez durante muito tempo, sentir diminuída por não conseguir ter dinheiro para ter fatos bonitos e caros todos os anos.
Ser criticada por isso por parte das minhas colegas foi verdadeiramente necessário pois abriu exactamente a ferida do desmerecimento para que ela pudesse ser verdadeiramente curada. 
O meu processo de Perdão alterna entre perdoar a mim mesma e perdoar essas pessoas! É muita dor, muito silêncio, muita introspecção, muita meditação, muito ritual!
Sinto uma profunda compaixão por essa Yolanda inconsciente que acreditou nessas mentiras! Estava cega e não sabia! Não me via! E ainda estou a aprender a ver-me e a ser testada a cada dia!
Já aprendi que não vale a pena dizer nada à outra pessoa que me magoou, a menos que ela queira mesmo saber! Já confrontei várias colegas com as suas atitudes e comportamentos, mas quando a outra pessoa não tem a mesma consciência, nega tudo ou pede desculpa pouco sincera e volta a repetir o acto! 
O trabalho de Desenvolvimento Pessoal não é com o outro, o outro é apenas um espelho! O trabalho é comigo! E ninguém sabe o que é estar na minha pele!
Um destes dias, uma dessas pessoas fez-me um elogio nas redes sociais em resposta a uma conversa que não era com ela! Não acredito minimamente na veracidade do elogio, não porque não o mereça, mas porque sei como ela realmente pensa em relação a mim e a pessoas! Fui apanhada ali no seu jogo de projecção de imagem de empoderadora de outras mulheres e reagi mal porque dentro de mim não tinha ainda admitido que estava magoada e, claro, um dia o verniz tinha de estalar! 
Eu sou perita a esconder a dor de mim própria! Outros, por exemplo, adoram fazer-se de vítimas! Eu acho que sou vítima do meu próprio orgulho! 
Tenho analisado muito o meu sentir porque cheguei a uma altura da vida em que não me apetece mais sentir-me mal por nada! É algo ambicioso e requer muito trabalho e talvez muito mal-estar até ficar bem, mas não quero mais viver com medo que não gostem de mim! Na verdade é disso que se trata, mas as camadas da nossa psique são tão complexas que todo este novelo demora a desenrolar! 
Até passarmos para o nível seguinte de evolução, as coisas vão continuar a repetir-se até tomarmos consciência delas!
Senti necessidade de escrever sobre isto porque eu defendo e promovo o meu trabalho na Dança como Desenvolvimento Pessoal e Amor, mais do que propriamente numa técnica específica ou Dança específica, e não me faz sentido passar uma imagem de pessoa espiritual toda resolvida! Não quero ser uma imagem do que não existe porque não há o TODA RESOLVIDA! Há o processo! O Kaizen, como dizem os japoneses! Todos os dias um pequeno progresso, um dia de cada vez! 
Um dia de cada vez vou curando os meus sentimentos de desmerecimento desde a infância que inevitavelmente moldaram os meus relacionamentos e certos caminhos na minha carreira, inevitavelmente me levaram a processos de exaustão no trabalho, a situações limite e a imensos ressentimentos com pessoas! 
Um dia de cada vez vou matando o domínio do Ego e substituindo-o pelo Amor!
O Amor que sinto por mim hoje em dia vem com grande sentido de humor! Apetece-me dizer mais piadas e descontrair mais em tudo e rir de própria porque me sinto feliz na minha pele na maior parte do tempo! Até ponho fotos em biquíni nas redes sociais! Mas não é um processo completo. Creio que nunca estará! É um processo em construção! 
No entanto, nem toda a responsabilidade da minha felicidade pode ser imputada ao meu desenvolvimento pessoal. Nós somos seres sociais e estamos todos interligados, acho que a pandemia tem-nos revelado muito isso, mas a nossa sociedade está muito doente. Ela rege-se por padrões de individualismo e competição e viver completamente à margem disto também é viver muito isolado. Ser luz no meio da lama dá muito trabalho, é preciso resiliência! 
Uma coisa é certa: o compromisso com o meu Desenvolvimento Pessoal através Dança é, sem dúvida, AO MAIS ALTO NIVEL e isso tem trazido os melhores resultados! E o Perdão é uma ferramenta mágica, também ela AO MAIS ALTO NÍVEL da qual não dispenso! Assumir a responsabilidade por nós é viver em verdade e, como dizia o outro “The truth will set you free!”!

Yolanda Rebelo
Abril  2021
(foto de Joaquim De Oliveira Gonçalves no Projecto "Come as you are")